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Recalque - Afinal o que é Recalque


Recalque

   O recalque, para Freud, é pedra angular da Psicanálise. É um conceito que surge pela observação do fenômeno clínico da resistência. Estamos sempre falando em um jogo de forças no psiquismo... desejo que tenta aparecer mas não pode, não ser distorcido... conteúdos inconscientes... resistência que impede que algo seja percebido em análise... um jogo de forças que apontam para uma censura e para "alguém" que censura um "outro" que é censurado. Quando se trata do primeiro modelo de aparelho psíquico de Freud, é disso que estamos falando: pré-consciente - censura - inconsciente (conforme o primeiro esquema proposto por Freud mencionado anteriormente) .
 
   Para que haja recalque, é necessário pensar que atingir a finalidade da pulsão em questão traria desprazer ao invés de prazer.  Mas já mencionamos que o aparelho psíquico funciona segundo uma lei, o princípio do prazer, e que o movimento, o desejo, se dá no sentido do desprazer para o prazer. Se for assim, a questão retorna: como pensar em recalcar algo que traz desprazer?

 

   Em seu texto O recalque, Freud aponta para outra possibilidade para além daquela primeira, que dizia que o que seria prazeroso para uma instância não o seria para outra. Ele dirá que a satisfação de uma pulsão é sempre agradável e que, se isso não acontece, é porque algo peculiar ocorreu que modificou tal satisfação de agradável em desagradável. E o que é desprazeroso deve predominar sobre o prazeroso para que é desprazeroso deve predominar sobre o prazeroso para que o recalque se faça necessário.

 

   O recalque serve para afastar algo da consciência. Há um recalque originário que serve como força de atração e puxa os conteúdos para o inconsciente. Há também a força de repulsão, exercida pelo pré-consciente-consciência, que os afasta. Assim, uma dupla de forças - atração e repulsão - garante que aquilo que é recalcado encontre uma boa barreira para retornar.

 

   No entanto, o recalque não impede que o representante pulsional continue a existir no inconsciente, se organize, origine derivados, estabeleça ligações. Ele só interfere na relação do representante instintual com o consciente. O que ele construa derivados do recalcado.

 

   Recalque diz respeito a um representante pulcional, a uma idéia que foi catexizada com uma cota de libido proveniente da pulsão. Mas e o afeto? E a quantidade relacionada à pulsão, o que se passa com ela?

 

   Se a representação é submetida ao recalque, o afeto pode circular livremente pelo psiquismo e se associar a novas representações, construindo uma rede de significados que vai daquilo que è inconsciente até o que se pode acessar pela consciência. Além dessa possibilidade de movimentar-se, o afeto pode ser suprimido--deixando de existir--ou transformar-se em ansiedade, quando não encontra nenhuma outra representação à qual se ligar.

 

   O recalque serve para que o sujeito fuja do desprazer e, no entanto, estamos o tempo todo falando sobre a formação de sintomas, sonhos e emergência de conteúdos que guardem relação com aquilo que foi recalcado. Se tais conteúdos psíquicos aparecem, há que se supor que trazem consigo desprazer, o que implica em que o recalque não tenha sido totalmente bem- sucedido em afastar essa possibilidade do desprazer daquele psiquismo. Curiosamente, è apenas desse recalque falho que temos notícias: algo escapa à censura, produz derivados, parece de maneira disfarçada.  A produção psíquica deve-se ao fato de o recalque não atingir completamente suas intenções.
  
   É através do enfoque no recalque e naquilo que é recalcado, que Freud proporá sua primeira teorização acerca dos lugares psíquicos e do modo de funcionamento do psiquismo, sua primeira tópica.

 

   Ao mencionarmos esse jeito de funcionar daquilo que é recalcado, de originar derivados, de se vincular a outras representações, de manter uma força pulsional que se junta a outros representantes para formar um sonho ou um sintoma, estamos falando de uma forma de funcionar na qual a energia è livre, plástica, podendo circular pelo psiquismo de maneira a estabelecer e desfazer ligações. Trata-se do processo primário, típico do funcionamento inconsciente.

 

   Até o presente, podemos perceber que a denominação inconsciente aparece em duas acepções: quando nos referimos a algo que não está na consciência e quando nos referimos a um lugar psíquico. Inconsciente pode ser um qualificativo, um adjetivo ou um substantivo.


Recalque - Em outras palavras:

Recalque é um Mecanismo psicológico de defesa pelo qual desejos, sentimentos, lembranças que repugnam à mentalidade ou à formação do indivíduo são excluídos do domínio da consciência e conservados no inconsciente, continuando, assim, a fazer parte da atividade psíquica do indivíduo e a produzir nela certos distúrbios de maior ou menor gravidade (RECALCAMENTO).


Recalcamos justamente aqueles pensamentos, idéias, fantasias, lembranças etc. que não se ajustam à imagem ideal que temos do mundo e de nós mesmos (nosso eu ideal). Freud descobre tratando seus pacientes que esses conteúdos que recalcamos geralmente estão associados a modos de satisfação sexual que não estão de acordo com o que a gente acha certo. Por isso recalcamos! Para tentar esquecer pra sempre que um dia a gente fez, viu ou pensou tais indecências!


O problema é que a energia que investimos nesses conteúdos recalcáveis é tão grande, que mesmo recalcados eles permanecem poderosos. Porém, como nossa consciência não os aceita por eles não condizerem com nossos ideais, eles tentam descarregar a energia vinculada a eles disfarçando-se na forma de esquecimentos, sonhos, sintomas neuróticos.





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